Quarta-feira, Novembro 03, 2010

Um Menino Rico Revoltado... A Lenda de Sidharta Gautama


Já vou avisando que, nada do que aqui vou colocar é uma versão desrespeitosa, apenas imagino como seria a mesma personagem nos dias de hoje, se seria possível uma consciência despertar...assim do nada.

Então, bola pra frente!!!

Era uma vez um menino, que contrariamente às outras crianças, nasceu de um parto sem dor. Conta a lenda, que a árvore sob a qual o menino nasceu , vergou seus ramos para que sua mãe pudesse agarrar-se e dar à luz de forma mais fácil, já que estava de pé...
Espanto geral da populaça que viu nisso um sinal dos deuses, e o pai babão, poderoso chefe das redondezas achou por bem chamar os pajés, xamãs, mães de santo e todos os homens sábios para que pudessem dizer ou prever o futuro do menino.

Um deles, poderoso mas humilde visionário, olhou pro nenê acabado de nascer e disse que o futuro dele poderia mudar o curso da história dos homens. O pai não gostou da história nem um pouco... ele queria que o filho sucedesse à ele no troninho do Quero- Posso- e Mando. Queria que ele fosse o rei da cocada preta e que tomasse pela luta mais territórios e fazer daquele cantinho do mundo um lugar poderoso...fazer do Nepal uma grande Nação.
Passados um par de dias, a mãe de Sidharta, (foi o nome que deram ao filhote, mas pra facilitar vou chamar de Sid) morreu sem qualquer tipo de doença ou dor. A chamada morte abençoada e que não faz ninguém sofrer. Diante dessa perda, temendo a doença, a morte e principalmente, o afastamento possível do seu filho amado... o grande chefão bolou um plano digno do Cebolinha.

Suddho, pai de Sid, decidiu fechar a sua corte num dos mais suntuosos e maiores palácios, não necessitando sair dele para nada. Mais ainda, arranjou vários estratagemas para que nunca, mas nunca mesmo, o seu bem amado filho Sid tivesse que presenciar o envelhecimento, a dor, a doença e a miséria do mundo. Assim, fechado nessa gaiola dourada cresceu Sidharta, mimado, acarinhado, totalmente ignorante do mundo real que havia por detrás das portas douradas do palácio. Ele cresceu, casou-se e durante a gestação do seu primeiro filho algo começou a mudar debaixo dos caracóis negros que lhe enfeitavam a cabeça. O que raios haveria por detrás dos muros do casarão? Porque nunca o deixavam sair de lá para ver o que havia??

Bom, é verdade que durante anos e anos andou a luz acesa naquela cabeça, tocavam a campainha ....mas ninguém atendia. Mas ainda bem que mesmo na sua vida adulta ainda teve tempo de pensar no que havia para além do palácio.

Então, depois de passar uma semana inteira aporrinhando o saco do Suddho, o velho lá abriu mão da sua teimosia e deixou que o filho visse o mundo fora de portas. Mas...o velho era daqueles que não dava ponto sem nó. Montou uma produção daquelas dignas da Globo, chamou figurantes (só gente bonita, saudável e jovem), contratou coreógrafos, embelezou a rua principal...e só assim deixou o rapaz sair em cima de um elefante , bem aconchegado no palaquim.

Sid, contente da vida, ficou olhando para aquela armação toda e se maravilhou... achou que afinal, a vida fora do palácio era igual aquela que ele tinha...até que ele viu um homem que parecia um maracujá de gaveta, enrugado, magro, esfarrapado...sujo e piolhento até ao limite da nojeira. 
Imediatamente os seguranças foram alertados via rádio que havia um que entrou numa de boca livre... e levaram dali o meliante. Mas Sid ficou encafifado...o que seria aquilo??? Porque sumiu??? De repente, as engrenagens que andaram tanto tempo emperradas na cachola começaram a funcionar...

Naquela noite ficou revirando na cama King Size feito pirolito em boca de criança... até que se levantou e foi questionar o pai. Entrou assim no quarto do Suddho sem bater na porta nem nada (menino mal educado e mimado tem dessas coisas... tudo é dele) e ficou chocado com o que viu...

Não, o pai não estava enrolado nas concumbinas numa suruba normal, estava sim levando mais uma camada de tinta nos cabelos, mais umas aplicações de botox pra fingir que ainda era jovem, que não envelhecia... e Sid tomou um choque... afinal as pessoas envelheciam??

O moço tomou de brios, saiu batendo os cascos no chão de indignação e marchou até aos portões e deu um jeito de escapar pra rua. Zanzou muito tempo, viu os mendigos, a doença nos olhos de crianças e velhos, o trabalho árduo daqueles que nada tinham, a dor da perda de um ente querido...ele olhou para os olhos do povo e viu o sofrimento, a dor e a perda...

Ora bem, chegando neste ponto podemos pensar duas coisas, ele poderia simplesmente pensar: 

"Não é problema meu que eles são pobres e eu sou rico e sem nada que me aporrinhe a vida...antes eles do que eu, mas passo um cheque chorudo, ou faço umas festas beneficientes e assim ajudo os pobres..."

ou

"Carai... cumé que é possível uns terem tanto e outros não terem nada?? Porque é que eu nunca sofri e tem gente que sofreu tanto? Porque me sinto sem apetite num banquete de 200 partos e outros sentem alegria com uma mísera lata de sardinhas e um pedaço de pão?? Não tou entendendoooo"

Mas Sid decidiu escolher a segunda opção, entender porque o mundo sofre, como saber escolher o caminho sem sofrimento e dor e que todos possam ser felizes. Por isso, Sid simplesmente fugiu de casa, largou a mulher grávida e meteu o pé no mundo. Entre sofistas, heremitas, surfistas, emos e demais tribos de ideologias diferentes...Sid não encontrou a resposta... decidiu por ele mesmo, com a ajuda da meditação e total ausência de participação no mundo alcançar a resposta que vale 100 milhões...

Ficou anos sentado na mesma posição (conhecida por toda gente que faz yoga de posição do Lotus), apenas se alimentando do orvalho e de alguma semente que algum pássaro deixava perto dos lábios. A imobilidade era tanta, que os pombos fizeram dele o lugar de descanso, os caracóis, não os do cabelo, mas aqueles remelentos normais, subiram até à cabeça dele e ficaram grudados...mas nem assim achou a resposta.

Até que, passados uns anos, encontrou a resposta: encontrar a felicidade, sentir a ausência do sofrimento e da dor, bastaria apenas e tão somente um equilíbrio entre a espiritualidade e o nosso lado físico. Descobriu que, sabendo que esta vida é apenas transitória, o apego às coisas materiais, a escravidão dos desejos levam à infelicidade... e tacharaaaammmm... 

Sidharta deixa esse nome para trás e passa a ser conhecido como Buda, que significa O Iluminado....

Agora vamos conversar...

Quando amamos muito alguém, queremos sempre evitar que essa pessoa, seja um filho, irmã ou namorado, não sofra e para isso, achando que faz um bem enorme, colocar a pessoa dentro de uma redoma. Só que há um grande problema nessa situação: aquilo que nos protege de tudo, tambem é aquilo que nos isola de tudo. Acaba sempre aparecendo uma mentirinha ou outra para que a felicidade não leve um beliscão, nem que a pessoa em questão fique com beicinho por ser contrariada. E assim, acabam por criar uma ilusão de perfeição que não existe, e quando a pessoa, um belo dia, porque há sempre um belo dia, descobre que afinal as coisas não são bem assim... dá merda.

Raramente a pessoa que desperta para a realidade encara as coisas bem, fatalmente acaba se revoltando contra tudo e todos. Poderá aparecer um ou outro que, perante as vicissitudes da vida, queira dar seu contributo ativo para melhorar aquilo que está mal e errado. Porque a maioria, para apaziguar a consciência, prefere passar um cheque chorudo, fazer festas beneficientes, aparecer na propaganda da camiseta da ONG.

Pensem nisso... amor não pode ser egoísta, muitas vezes amar é fazer das tripas coração, abrir mão da pessoa que amamos e deixar ela dar umas boas cabeçadas na parede...

Fui.

2 comentários:

Santinha disse...

Oi Penelope!
Há muito tempo que não aparecias por cá!
Gostei muito desta versão e especialmente do final.
E queria realçar uma coisa: Buda até andou com os surfistas.

Jinho

Penélope de Kvar disse...

Santa...entre sofistas e surfistas...vai uma prancha de diferença... :P

Pepê