Terça-feira, Novembro 09, 2010

A Dama do Lago Precisa de Touca de Banho


Não é que não exista material de sobra pra escrever sobre mitologia grega, não é isso. É que há tanta coisa por aí engraçada, verdadeiras novelas das oitos em vários contos, lendas, tradições e mitos pelo mundo, que até é uma sacanagem não abordá-los tambem.

Aí, ontem, meio emburrada por causa de um resfriado, com nariz pingão e sem saco pra mais nada, fui na estante dos filmes e tirei um que já fazia séculos que não via. E por causa dele, vou começar a falar das lendas arturianas. O filme? Excalibur. Fui atrás dos livros, libretos de óperas, de sinfonias e o escambau. Desta vez vou começar pelo meio porque deve ter sido horrível a vida dessa dona...

Imaginem o que é agora a Grã-Bretanha mas no ano 500 D.C, não havia Rei, o território estava parcelado pelos diversos senhores feudais, o povo andava em passeatas, uma bagunça que só. Mas havia uma lenda que dizia que o homem que uniria todo o território surgiria no dia que fosse capaz de tirar uma espada de um pedregulho. (Juro que depois conto a lenda de Arthur, mas agora passemos à frente) Arthur tirou a espada e foi consagrado como Rei. E todo rei que se preza, tem cavalo, armadura, escudo, lança e... espada. Mas não pode ser uma espada qualquer tipo Made In China ou "importada" do Paraguai. Não...tinha que ser uma espada de tradição, de respeito e que só a presença da dita fizesse os inimigos tremerem na base.

Uma espada dessas não se encontra na sucursal do inferno que é a Rua 25 de Março, nem em mercado das pulgas. Tem que ser um lugar de respeito. Na época, e vale a pena lembrar, a Velha Tradição (aquilo que hoje se chama de Wicca) andava tentando manter a cabeça a tona por conta do cristianismo. Pra mal dos pecados, o local sagrado dessa tradição era uma ilha chamada de Avalon, escondida entre as brumas, no meio de um enorme lago. Nessa ilha, as doenças encontravam cura, o tempo deslizava de forma diferente, mais devagar, reinava uma paz...chata pra caramba e era o lar das sacerdotisas da Grande Mãe, e por isso mesmo da Grande Sacerdotisa. Só que como toda Grande qualquer coisa, não vivia propriamente em Avalon...vivia no Lago que circundava a ilha.

Não havia hidratante que chegasse, nem chapinha que lhe valesse para manter o cabelo e o corpo assim pro lado do mais apresentável. Por isso, Viviane, a Dama do Lago, mostrava só o braço e... já era muito. Ouvia-se a voz dela, o canto ao amanhecer e ao pôr-do-sol...
Mas... as notícias corriam depressa, e logo chegaram aos ouvidos de Viviane que o salvador da Bretanha chegou e ela mandou um torpedo ao Merlin : "Manda esse moleque aqui no lago, quero falar com ele". Merlin coçou a careca... e pensou que seria bom dar umas explicações ao Arthur, porque o que lhe sobrava em coragem, faltava em cérebro, então era bom explicar umas coisinhas pro lerdo mental antes que fizesse alguma besteira na presença da Dama do Lago.

"Olha aqui meu filho, a Dama do Lago quer com você, deve ser importante e por isso mesmo vou te dar uns conselhos: não enfia o dedo no nariz e fica ali escarafunchando enquanto ela fala, não arrota na frente dela, pum nem pensar, e é "sim senhora", "não senhora" e  "muito obrigado senhora". Entendeu?"

Arthur coçou o capacete (esqueceu que tinha ele na cabeça...o lerdo), fez aquela cara de esforço mental, e tentou decorar todas as coisas que o velho ia falando pra ele. Guardou naquela cabeça vazia os preceitos ditos pelo velho mago, não queria fazer feio,mas por vias das dúvidas fez uma cola e grudou na manga...por que aquela cabeça...

Pegou no cavalo e esperou pelo jumento do Merlin (o Merlin não era jumento, tinha um jumento como meio de deslocação), que tão teimoso e empacado como o dono demorava em chegar...ficou ali fazendo uma revisão nas regras de boa educação ditadas pelo velho mago.  Quando finalmente o mago e o jumento chegaram, rumaram para o tal Lago. No caminho, cada um ia pensando no que cargas d'águas a Viviane queria falar de tão importante...


Viviane já nos cascos com a demora da dupla capenga, pensava que aqueles dois nem imaginavam a responsabilidade que tinham em mãos para levar o território à Paz e Prosperidade.

"Humppfff.. homens, os lerdos de sempre!! Cerveja, vinho, comida e porrada... isso é que lhes interessa..."

Finalmente, Arthur e Merlin chegam na beirada do lago e vêem a barca que costumeiramente leva e trás os passageiros para Avalon. Arthur, como todo cara grande era um trapalhão de marca maior e se viu grego (eu disse grego?) para acertar a remada. Merlin de flanelinha ia dando as indicações que nunca davam em nada: "mais pra esquerda, mais pra direita... olha o ritmo!!"
Lá no meio do lago, a Lady tava tamborilando os dedos, vendo aqueles dois aos zig-zags e se perguntando se Arthur seria uma boa escolha...affff...

Praí uma boa hora depois, um muito suado Arthur e um já rouco Merlin chegam finalmente no meio do lago e Viviane chama Merlin de lado pra um conversê...

Depois de muita conversa, de todas as provas dadas por Merlin, Viviane aceitou que Arthur será o Rei da Bretanha e sabendo que essa não seria uma tarefa fácil e tentando garantir que Avalon e a Velha tradição não perdesse o seu lugar, achou uma solução confortável.

"Olha aqui Arthur, já que você vai ser Rei, já que vai ter que lutar muito...vou te dar uma ajuda preciosa. Mas presta bem a atenção moleque: eu vou te dar uma coisa que é tão valiosa, mas tanto, que sem ela, você  pode perder tudo, até seu reino. Porque com essa coisa que vou te dar... vai um juramento com ela. Se quebrar o juramento, quebra o acordo e acabou tudo... entendeu?"

Arthur, que só memorizou o: valiosa e reino, e mais do que isso caiu fora dos ouvidos. Portanto olhou pra cola que tava grudada na manga, e disse um . "sim senhora" tão sério...que até convenceu a Lady.
Ela mergulha no Lago, foi até aos seus aposentos particulares e voltou de lá com uma espada esplendorosa...

Os dois caras no barco olharam com espanto a mão de Viviane surgindo de dentro d'água com uma espada brilhante esplendorosa... Merlin começou a tremer todo... será?? Seria?? Não podeeeee... começou a gaguejar e se beslicar todo, querendo acreditar que aquela... era a lendária espada???

"Arthur..." disse a Dama do Lago "esta espada é Excalibur, a espada mágica que vem de tempos idos, onde a sabedoria era embutida em objetos que serviram para manter o equilíbrio na Terra... Mas junto com ela vai a promessa, que da mesma maneira que você vai defender a fé cristã, vai tambem defender a fé da Velha Tradição, as duas crenças vão conviver em boas graças ok?"

Arthur não entendeu lá muito bem, mas por vias das dúvidas,  aceitou o trato, afinal, não ia custar nada, e aquela espada...ia ajudar na suas conquistas e lutas...

A espada tinha o poder de nunca se partir e sempre ajudar o seu possuidor. A bainha foi feita pela meia irmã de Arthur, a Fada Morgana (eu bem digo que isto é meio novela das 8), que não só protegia o dono de Exaclibur de ferimentos de morte como ainda ajudava a não sangrar, promovendo uma cura fácil.

Na verdade, passados uns anos, a cabeça dura de Arthur e algumas cagadas...ele esqueceu o juramento feito à Viviane, esqueceu de proteger a Velha Tradição, começou só a correr atrás do Santo Graal, quase ensandecendo por isso... e a Viviane tomou-lhe de volta a espada mágica. Foi o descalabro total, a Bretanha novamente começou a mergulhar no caos e destruição, a morte era uma constante...
Arthur, ferido de morte, já sem Excalibur, rogou à Dama do Lago por misericórdia... e ela, coração de manteiga, levou-o para Avalon, onde segundo conta a lenda... Arthur está lá adormecido esperando voltar para recuperar o seu lugar.

E Viviane anda lá em baixo no Lago, se besuntando com hidratante, gastando rios de dinheiro em cabeleireiro por causa do cabelo lambido e escorrido... e ninguém da uma touca de banho pra ela...

...que judiação...

Fui

1 comentários:

Santinha disse...

Muito mais explicito, resumido, interessante e principalmente divertido do que os 4 volumes das "Brumas de Avalon".

Jinho

P.S. Vou cobrar a promessa, quero ler a história da Excalibur