Segunda-feira, Agosto 23, 2010

Vinho, Sexo, Liras...e Mitos


Uma das grandes raridades nesse mundinho V.I.P  do Olimpo era o fato de que, os filhos de Zeus, os que saiam das suas lambaças com as mortais... nunca eram deuses de verdade. Os coitados além de terem que aguentar a fúria da Hera, ainda por cima viviam naquela "meia vida" popular. Mais ou menos como os integrantes do Big Brother...são famosos por um tempo e por um preço.

O único que escapou dessa vida de semi-anonimato foi Dionísio. Bom, assim ninguém sabe bem de quem estou falando. Mas e se eu falar em Baco?? Pois é, os romanos, que basearam o seu panteão nos deuses dos outros, copiaram na integra a vida dos deuses e só trocaram os nomes. Baco ficou famoso mas na verdade era Dionísio quem começou tudo. E foi assim...

Era uma vez, o deus mais galinha conhecido (já sabem de quem estou falando né?) na face da Terra, que um dia, olhando lá de cima de uma nuvem viu uma beleza passeando pelos bosques. Mas... a beleza não só era filha dele, como também era cunhada. Tratava-se de Persefone. Bom, embora para nós seja absurdo e contra-natura a relação mais íntima de pai e filha, lá nos deuses..valia tudo. Não se esqueçam que Zeus era casado com a própria irmã, a ciumenta Hera.

Lógico que ele não podia chegar lá de caras pra faturar a cunhadinha, ia dar rolo com a Hera e com o irmão, Hades. Portanto, usando de uma das suas faculdades mais ardilosas, Zeus se metamorfoseou em serpente. Esperou a Persefone adormecer e... pronto. Daí nasceram as piadinhas idiotas de cobras e.. conotações fálicas. Mas o todo poderoso deus, além de galinha era muito fértil, e dessa união cretina (porque só uma trepada com uma mulher dormindo... é o cúmulo da estupidez) a Persefone ficou grávida do deus. Mas Hera, tinhosa como ela só, descobriu tudo. Escaqueirou tudo no Olimpo, os pratos só ficaram inteiros, porque eram de ouro, mas o resto...voou pelos ares. A sede de vingança da cornuda foi tão grande que ela instigou os Titãs à matarem o baby, de seu nome Sabázio. Os brutos não só despedaçaram a criancinha, como ainda por cima comeram as partes despedaçadas. Só restou o coração, que Atena resgatou e tristemente levou até aos seu pai. 

Zeus, triste que só, pegou nesse coração puro e inocente e resolveu que não ia ficar sem aquela cria. Como já andava de olho numa outra gata gostosa chamada Semele...bolou um plano digno de novela das 8. Não me perguntem a receita que eu não sei, mas com o coração do filho falecido e devorado preparou uma poção mágica. Cantou a gata com toda a sua perícia e depois... no conversa vai, conversa vem, ele deu de beber essa poção louca. E Semele ficou grávida. Hera, puta da vida, ficou sabendo de tudo e não ficou por meias medidas... dessa vez ia acabar de vez com essa história dos bastardinhos. Bom, Hera preside aos partos, sendo então patrona dessa condição, fazia os serviços pré-natais da mulherada nessa época. Resolveu então picar a Semele:

" Queriiiidaaaa, que sorte a tua estar grávida de tão ilustre persona. Já agora... você já viu como ele é na sua forma verdadeira?? Não????!!! Ô minha queridaaaa...você não sabe o que está perdendo..."

Mulher é um bicho curioso de nascença, aliado ao fato de estar prenha faz dela um ser mais ou menos caprichoso. Portanto, a Semele pediu, insistiu, fez olhinhos de cachorro que fez xixi no tapete...tudo pra ver Zeus no seu verdadeiro resplendor. E pegou Zeus... com a toga nas mãos.

A melhor hora pra conseguir alguma coisa de um homem ou de um deus... é quando ele tá pegando no sono, naquela hora que ele até promete ir com a gente às compras na 25 de Março na véspera de Natal. É batata, dá sempre certo. Primeiro enche de perguntas, massacra os ouvidos e depois de muitos sins e juras.. larga o pedido real. E foi assim que Zeus jurou pelo Estige (o mais sagrado do sagrado, nem deus jura em falso) que ia mostrar toda a sua glória verdadeira. Portanto, o deus de saco cheio de pedidos, querendo dormir...mostrou-se com toda a sua luz gloriosa...

Mas Semele era mortal e nenhum mortal pode ver ou estar diante do deus dos deuses e sair disto vivo. E a moça virou churrasco no exato momento que Zeus mostrou a sua figura esplendorosa. Aí o deus viu a cagada que fez...e das cinzas tirou o feto ainda vivo, mas somente com seis meses de gestação. Atrapalhado e sem outra saída, abriu um corte na coxa, acomodou a criança lá dentro, costurou tudo e a gestação continuou. Hera ficou toda satisfeita com o cheiro de churrasco de piranha e portanto, largou mão do caso.

Na devida altura, Zeus chamou o seu homem de confiança, Hermes, descoseu a perna, tirou de lá o baby à quem chamou Dionísio e disse pra Hermes arranjar uma família adotiva. Assim, o filho de Zeus, que pelo simples fato de ter sido gerado na sua coxa, deu razão a ser um deus, mesmo tendo como ascendência uma mortal.

Mas um dia, sabe-se lá como, Hera descobriu tudo. E foi dizer pro rapaz que era adotado... e começou um daqueles enredos bem puxados pro drama. O menino surtou, deu uma de revoltado...Hera aproveitou e deu uma substancia tóxica que o deixou malucão. Vagueou pelo mundo fazendo cagadas, xingando, só fazendo besteira. Até que por acaso chegou á Frígia e conheceu Cibele, que o levou pra casa, tratou dele, curou-o e deu rumo ao rapaz. Muitos de nós conhecem casos destas mulheres que pegam em tresmalhados da vida e tenta dar uma nova oportunidade. Segundo consta ela era uma reencarnação de Reia, uma das deusas primordiais, deusa da fertilidade, do ciclo vida/morte. Portanto deu uma nova vida à Dionísio. 

O rapaz começou a se interessar pela agricultura, principalmente pela vinha, uvas e vinho. Seus amigos, as ninfas, sátiros e centauros... eram da pá virada. A típica juventude despreocupada que só pensam em ficar embriagados, trepar e se divertir. Portanto, as festinhas do Dionísio eram de arromba, verdadeiras Raves intermináveis e bem loucas. De qualquer modo, Dionísio era um cara que até era bastante inteligente e não era nada metido a besta. Até poderia ser, afinal, era filho de Zeus né? O seu pai tinha lutado por ele...

Tornou-se a divindade de alguns rituais onde estar em transe (intoxicado, bêbado) fazia parte de tudo. Patrono da vinha, do vinho e da alegria geral, era um tipo bem disposto e com ouvido pra música. Tinha como divertimento maior assistir e ouvir as cavalices do rei Midas. Um "boa vida" que se dava bem com toda a gente. Em Roma, foram descritas muito bem as bacanais, as festas em honra de Baco e das quais se perverteu o sentido das festividades dionisíacas. Normal. 

Agora... 

Nos idos de 1970, por motivos não vou explicar mais do que necessário, um familiar meu se viu internado num hospital especializado em cirurgias plásticas. Um dos internados, era um homem a quem por acidente tinha ficado com um braço descarnado. Ficou mais osso do que carne. Portanto, para "regenerar" alguma coisa que permitisse mais tarde uma reconstrução...enfiaram o braço dele dentro da barriga. Mais ou menos a historinha de Zeus colocar o feto na sua coxa. Este mito, conheci um par de meses mais tarde, e sempre que penso em Dionísio... nunca penso em vinho ou festas de arromba. Penso naquele senhor, que andava com o braço enfiado por debaixo da pele da barriga até ao cotovelo.

E penso que os mitos.. se misturam demais com a realidade, e que muitas vezes...nem se sabe onde começa a realidade e acaba a ficção.

A vida é surpreendente...

Fui.

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