Dizem os gregos, que houve três Idades na evolução humana. A primeira, a Idade do Ouro, foi tida como tão perfeita, tão certinha e boa que os deuses começaram a torcer o nariz. Afinal, os humanos eram muito parecidos com eles, e antes que alcançassem um poder igual dos deuses estes fizeram com que tudo acabasse. Aí veio a Idade de Prata, onde os humanos estavam num patamar mais baixo, e por isso não ameaçando a realeza divina.
Mas os humanos se tornaram nuns entojos de primeira ordem..mania de Jet Set pé de chinelo...preguiça, ganancia, egoísmo...venha o capeta e escolha, foram as qualidades que se apuraram durante a idade da Prata.
De tempo em tempos Zeus ia escutando as reclamações das divindades...uns se queixavam que os humanos já não faziam oferendas nos seus templos, e quando faziam, era uma coisa tão mixuruca que parecia feito de má vontade... Zeus como todo manda chuva que se presa, em vez de tomar logo conta da ocorrência ficou dando moleza...e a coisa piorou cada vez mais. Até ao dia que se encheu de ouvir tanta reclamação, chamou Hermes e foi incógnito até aqui, ao lar dos mortais. Disfarçado de peregrino, andou de cidade em cidade vendo todas as facetas menos boas da humanidade em todo seu esplendor.
- "Já viu esses safados, filhos da pu.. que nem sequer nos dão um pedaço de pão?" rosnou Zeus, "a minha vontade é estourar esta bagaça toda de uma vez.."
-"Vamos levar com caaaalma ok? Quem sabe na próxima cidade as coisas são melhores?" aconchegou Hermes e sua alma diplomática.
Zeus aceitou a sugestão e foi andando de cidade em cidade e ficando cada vez mais emputecido com o que via. Cada vez que pedia abrigo ou alimento recebia em troca altivez e desprezo...a coisa tava ficando cada vez pior pro nosso lado. Até que chegou uma altura que ele virou pra Hermes e disse:
-VOU TACAR FOGO NESTA JOÇA TODA!!! ME AGUARDEM!!!
Aí Hermes com o seu jeitinho, com a sua lábia conseguiu explicar pro pai irado, que se tacasse fogo as chamas poderiam chamuscar o reino celeste...e depois, cheiro de churrasco em manto e túnica demora demais pra sair...
Aí, Zeus lembrou-se de afogar todo mundo num grande dilúvio, uma coisa mais limpinha por assim dizer. E Hermes, tentando salvar a humanidade virou pro pai e disse:
-"Mas já pensou se por engano a gente matar um inocente?"
- "Que se dane...efeito colateral é isso mesmo!"disse o deus
E depois de muita conversa, muita paciencia de parte a parte resolveu-se que, se na próxima cidade encontrassem pelo menos uma pessoa do bem, Zeus iria avisar da enchente.
E foi assim que chegaram numa cidadezinha, onde foram recebidos como de costume... com desprezo. E Zeus cada vez mais nos cascos de tanta ira contra o povo...
Hermes, mais uma vez tentando limpar a nossa cara, procurou algo que pudesse distrair a atenção do pai irado. No alto de um morro havia uma casinha modesta e pensou pedir abrigo por ali mesmo.
Nessa casinha modesta, mas limpinha, viviam Deucalion e Pirra, um casal já idoso, pobre, porem com um bom coração. Assim que avistaram os dois peregrinos, ofereceram abrigo para aquela noite. Meio desconfiado Zeus aceitou a oferta...era bom demais pra ser verdade.
Ofereceram os dois únicos bancos da casa para que os viajantes pudessem sentar-se e descansar as pernas. Depois Deucalion ofereceu vinho (um pouco mais parecido com vinagre do que vinho) enquanto Pirra corria atrás da única galinha que tinham.
Ao jantar, e apesar da galinha ser mais dura que sola de sapato, ofereceram as melhores partes aos dois hóspedes, ficando para eles com uma magra parcela. Sem querer, Zeus ficou com os olhos rasos d'água ao ver a generosidade de um casal tão pobre mas tão bondoso. E com a voz embargada e o beicinho tremulante tirou o disfarce de peregrino e Tchazam!!! Mostrou-se em todo sua glória de deus do Olimpo.
Explicou que já que o resto do mundo era tudo uma cambada de filhos de uma cadela sarnenta, ele ia mandar uma tromba de água pra limpar a terra, mas que eles, pessoas de bem iam se salvar. Bastava para isso subirem até ao Monte Parnaso e ficarem por lá até acabar a faxina. O casal meio atônito concordou com a ideia de Zeus, arrumaram os seus pertences numa trouxinha e se puseram no caminho do Parnaso.
Zeus entretanto, voltando ao Olimpo, convocou uma assembleia dos deuses e decidiu a tática. Pra já ele mesmo ia mandar muita chuva, seu irmão Posseidon o boss do mar, ia ajudar com mais umas litradas de água. Hades, deus das profundas ia fazer o solo tremer e abrir, de modo que as águas pudessem entrar com toda a facilidade por todo o lado.
E assim acabou a Idade da Prata, como numa enchente no rio Tietê ou Pinheiros, aquela coisa sem nexo que se repete há décadas.
Zeus ficou todo satisfeito ao ver a obra concluída e foi descansar no troninho celeste. Depois de um monte de dias passando fome, foi reclamar as suas mordomias.
Só que quando Deucalion se deu conta que ia ficar sozinho, pro resto da vida só com Pirra...começou a ter dores de barriga. Ele amava Pirra sim senhor, mas nem queria pensar no caso dela começar a querer conversar todos os dias e todo o dia... ele ia acabar maluco!! Depois nem queria pensar na menopausa e todas aquelas coisas que um homem precisa desabafar com um amigo...e o futebol? Acabou de vez?
Correu pra um dos templos que sobraram em pé e rogou aos deuses uma solução pro caso. E Zeus, sabendo que aquele homem era justo e merecedor da sua bondade (quando tinha alguma pra dar), deu uma solução pro problema:
"Tu e tua mulher vão afrouxar as roupas (Deucalion ficou sismado...) vão vendar os olhos...(e aí ficou pensando que tipo de sacanagem Zeus queira deles) e vão jogar pra trás das costas os ossos da vossa mãe!"
Deucalion coçou a cabeça, matutou sobre o assunto e foi falar com Pirra:
-"Dedé... eu não sou capaz de fazer uma coisa dessas...pegar nos ossos da minha mãe e jogando pra trás das costas???"
- "Pipa... acho que já matei a charada..."
E Pirra sem entender nada e confiando na capacidade do marido segui-o até um local cheio de pedras. Aí o marido explicou que a Terra era a nossa mãe, onde nascíamos e onde nos era dado tudo. E que nós, seus filhos nunca demos o seu devido valor. E assim, de roupa frouxa e de olhos vendados foram jogando pedras pra trás. De cada uma que Pirra lançava, nascia uma mulher, assim como as de Deucalion nasciam homens...
E assim nasceu a Idade da Pedra. Aquela que ainda hoje vivemos.
A moral desta história é esta: nós estamos aqui de passagem, nada é nosso, tudo é de todos. O bem estar que procuro nunca deveria ser egoísta, nem prejudicar outras pessoas. A generosidade, por muito pequena que seja é sempre bem vinda...ajudar aos outros é um ato de amor simples.
Nunca sabemos o que vai acontecer amanhã, um cataclismo, um acidente...e tudo o que a gente leva desta vida, são as coisas boas que fazemos, as boas lembranças e a nossa consciência de que fizemos o nosso melhor.
Fui

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